General Greatauk

Mil faces e uma garrafa de vodka

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Existe um momento na vida em que você precisa decidir se a vida em si vale a pena, se as pessoas são dignas, se o perdão, a mitigação de confrontos e a compaixão servem para alguma coisa.
Cresci durante muito tempo acreditando no melhor das pessoas, vivenciando o melhor e o pior delas, aprendendo que os humanos não são nada mais que figura que vestem máscaras para cada mínimo ato praticado.
Com os pais, família, escola, trabalho, vizinhança, enfim, para tudo há uma pessoa dentro de outra, como se todos nós fôssemos bonecas russas que se abrem a medida que uma faceta nova é necessária.
E eu posso dizer sem sombra de dúvidas que muitas faces que cruzaram meu caminho eram as piores e mais dissimuladas possíveis. Outras eram a efígie da violência, da mentira, da brutalidade, outras do orgulho, da intolerância e do ódio.
Eu mesmo durante muito tempo usei a máscara da bondade, e mesmo sendo açoitado por mentiras, violências, traições e desilusões a usava como um escudo, sim um escudo, pois cada vez que a escuridão dos demais me alcançava eu usava a mesma face para evitar que percebessem o quanto eu era atingido ou me quebrava por dentro.
Nunca fui ou me achei belo, forte, inteligente. Sempre me esforcei muito, dei meu máximo e até alcancei certo reconhecimento social por ocasião das minhas capacidades e desempenho na profissão que escolhi, mas durante anos fui perseguido, humilhado, ameaçado e sofri violências e traições das mais diversas.
Não culpo o mundo somente, culpo também a mim. Fui fraco, compassivo e covarde demais para me impor, para sair do ciclo de perda e decepção em que me encontrava. Minha válvula de escape por vezes eram a música e o desenho. Embora não seja expert em nenhum dos campos, era ali que eu fazia meus demônios saírem de foco e me deixarem em paz.
Achei que crescendo as coisas se ajeitariam, eu obteria mais respeito, mais consideração, porém, me enganei novamente. Nada que eu faça ou demonstre modifica alguma coisa, pelo menos não da forma que eu acho que deveria ou que seria justa.
Cada capítulo da minha vida foi marcado por ocasiões em sua maioria ruins, violentas, tristes, decepcionantes ou tudo junto. É, não foi fácil, mas eu precisava quebrar o ciclo. Tentei e venho tentando, tenho uma esposa que amo e me ama e um filo que é bonito, inteligente e que será meu meio de consertar tudo aquilo que me corrompeu e me tornou a besta que sou.
Não, não é exagero. Lembram das facetas, pois é, eu uso uma. Ser um bom moço, um bom vizinho, educado, polido é chato. Cansa, pois o mundo não está nem aí pra isso. No meu país ser bom, justo e ético é sinônimo de ser trouxa.
EU fui e sou trouxa, tanto por ter doado o melhor de mim a muita gente que nunca mereceu quanto por haver perdoado quem me tornou o que sou, ou que de alguma forma contribuiu para construir o abismo que tenho por dentro.
Eu me surpreendo com o carinho e dedicação que nutro por minha família, pois ao mesmo tempo que desejo fortemente protegê-los a todo custo, a onda de frieza que me invade me assusta.
Eu não ligo para quase nada, não me importo com quase nada ou ninguém, e para mim tanto faz se o mundo acabar hoje, amanhã ou se metade da população mundial perecer por doenças, guerras ou o que quer que seja.
Serei ‘crucificado’ por isso, mas é a verdade. As vezes um filme passa em minha mente e todo mundo que de alguma forma causou alguma tristeza, alguma decepção aparece ali e eu não sinto nada, nem raiva, nem desprezo, nem amor, nem compaixão, e da mesma forma que não importam para mim creio não importar para elas, então deixo de me preocupar.
O problema é que muita gente está presente no meu caminho e esses sentimentos perduram. As vezes me pego pensando em desastres, catástrofes e me imagino sempre só em futuros distópicos, na minha cabeça.
Não creio, nunca quis crer na verdade, que eu merecesse um futuro feliz, digno e encantado. Sei que fiz mal a muita gente por atos ou omissões, mas acho que o mundo sem mim ou comigo não teria diferença alguma, acho até que algumas pessoas seriam mais felizes ou despreocupadas longe de mim.
Estou divagando. Tenho uma profissão formada por gente que tenta ser decente no meio de canalhas e vagabundas que se valem de atributos físicos, e imbecis que acham que bajulação é sinal de inteligência, quando na verdade é a forma mais baixa e vil de existência.
Vivo num país em que impera a lei do mais esperto, cheio de imbecis que se digladiam verbal e fisicamente por causa de política, defendendo regimes e ideologias que não entendem a si mesmas e que pouco se importam com o cidadão, querem o poder, o prestígio, o dinheiro.
Uma nação ajoelhada, que idolatra animais que sequer sabem escrever direito ou que produzem algo digno de nota, mas que sabem chutar uma bola, falar mal do governo num vídeo ou balançar a bunda na frente de uma câmera.
Grupos que exigem direitos, homens covardes que para alcançar aceitação dizem integrar qualquer minoria social, um bando de babacas acéfalos que não teriam sobrevivido ao inferno que foi minha vida escolar.
A verdade é que eu adoraria ver o planeta inteiro sucumbir a uma praga ou a um desastre. Talvez isso trouxesse alguma espécie de limpeza, de cura.
Eu mesmo me cansei. Nem mesmo as facetas diárias tem valido de algo. Tenho me tornado cada vez mais irritado, mais embrutecido e distante da realidade, desejando apenas solidão e paz, mas sei que jamais terei nenhuma das duas.

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