• O autor

      Rodrigo Guerini é historiador, professor, autor do blog SanroJoga e redator de jogos para a hardMOB.

      Brass: Birmingham (Conclave)

      Há uma importante evolução que está ocorrendo nos últimos 25 anos no mercado de jogos de tabuleiro. Cada vez mais acelerada, bons jogos lançados há cinco anos já parecem obsoletos por mecânicas mais bem utilizadas em lançamentos ainda mais recentes.

      É possível que isto tenha causado ceticismo em alguns com o anúncio do relançamento de Brass. Apesar de ter adquirido seguidores à época, sua nova arte e regras atualizadas poderiam tanto desagradar os amantes da versão antiga e, pior, não entreter a nova safra de jogadores que por ter entrado mais recentemente no hobby, nunca conheceu o original.



      Se lançar esta versão, agora renomeada para Brass: Lancashire, já não fosse atrevimento suficiente, resolveram ir mais longe, criando uma versão, com regras ainda mais modificadas dando o nome de Brass: Birmingham. E quer saber? Deu certo, muito certo.

      Birmingham é um “euro econômico”. Duas palavras que já são o suficiente para afastar muitos da mesa. Apesar da arte chamativa da nova versão, há pouco aqui para aliviar a entrada de um jogador casual neste mundo de jogos mais pesados, nem um simples cartonado relembrando quais são as possíveis ações por rodada, o que facilitaria a explicação do jogo para novatos.

      Como no jogo de 2007, aqui usa-se cartas principalmente para se construir minas, siderúrgicas e tecelagens, além das novidades da cervejaria, manufaturas genéricas (é, não se importaram em dar um nome) e olarias. Cada construção precisa de recursos geralmente providos por outras construções e por dinheiro.



      Diversos níveis de edifícios, que demandam cada vez maior quantidade de dinheiro e, potencialmente, recursos, mas gerando ainda mais renda ou pontos de vitória demonstram um raciocínio simplista: consegue-se dinheiro para construir, o que lhe permite ganhar mais dinheiro. Repete-se até o fim do baralho de cartas.

      Esta aparente aridez nas ações é compensada pelas escolhas de posicionamento e tipos de indústrias. Perceber a necessidade do mercado e construir uma mina de carvão ou metalúrgica no momento correto, ou ainda usar uma cerveja de um adversário e destruir todo seu planejamento são momentos bastante satisfatórios, mas apenas para aqueles que realmente investirem seu tempo em aprender a jogá-lo e em suas nuances. Não é para todos.

      Além dos edifícios, constrói-se canais ou trilhos de trem (dependendo da era) o que cria uma rede de localidades de cada jogador. Faz parte de uma partida de Brass estabelecer sua rede de forma não só a abrir espaço para suas indústrias, mas também para transportar seus produtos internamente e para o mercado nacional. Além de gerar pontos de vitória no final de cada era.



      De grandes novidades da versão Birmingham, além dos novos prédios que abrem possibilidades para diferentes estratégias, inclusive a cervejaria que substitui o porto, encontra-se duas cartas coringas que resolve quase definitivamente um problema grave do antigo Brass de quando as cartas certas simplesmente se recusam a vir em sua mão, diminuindo o fator sorte, palavra quase proibida para o público alvo deste tipo de jogo.

      Pontos positivos

      A cereja do bolo – Apesar de regras não exatamente simples, não há muitas ações diferentes em Birmingham. O que o transforma em um jogo brilhante são as escolhas realizadas em cada uma das jogadas.

      Na medida certa – A obra prima de Martin Wallace em sua melhor forma. O suficiente para coçar sua mente com possibilidades, mas não tão árido quanto um jogo da série 18xx. Longe de ser recomendado para iniciantes, intenso para qualquer um que estiver disposto a ultrapassar sua curva de aprendizagem inicial.



      Pontos a considerar

      Não é para todos – Tenha muita certeza que seu grupo realmente está a fim de uma partida de Brass. Com regras complexas, punitivo para quem tomar decisões erradas e partidas com mais de 2 horas, apresentá-lo ao grupo errado pode ser frustrante. Há diversão mais fácil em jogos mais leves.

      Não é o original – Com mais possibilidades de caminhos para se marcar pontos, Birmingham é um jogo melhor e mais “moderno” comparado ao seu irmão mais velho: Lancashire. Alguns, entretanto, podem torcer o nariz seja por nostalgia, seja por buscar uma jogabilidade que puna ainda mais jogadores novatos que ainda não encontraram a fluidez do jogo.



      Pontos negativos

      Gerenciando minha empresa – Se realizar uma jogada espetacular pode ser extremamente recompensador e surpreender a todos na mesa, encontrá-la pode ser algo dantesco para alguns. O tempo entre turnos pode ser longo devido ao tempo de raciocínio de cada um na mesa, principalmente nos antepenúltimo e penúltimo turnos onde cada jogador busca espremer até o último recurso para um maior aproveitamento.

      Uma vela, por favor – Na falta de pontos negativos, coloquemos um positivo. A nova arte é linda, de uma elegância ímpar e evoca a todos os momentos a revolução industrial em curso na Inglaterra, sendo muito superior ao desenho quase infantil do original. Entretanto, é escura mesmo em seu lado “claro”. É preciso algum tempo na mesa para deixar seus olhos se acostumarem.



      Consideração final: Brass: Birmingham é o melhor jogo lançado no ano de 2019 no Brasil. Se em seu grupo houver um mínimo interesse em euros médio-pesado com grande ênfase no gerenciamento de dinheiro não há razão para não o ter na coleção. Lembre-se que é preciso um grupo engajado para uma boa experiência. Não coloque-o na mesa para aqueles que só jogaram Ticket to Ride e Carcassonne.

      Algumas fotos da análise são da versão kickstarter. Em termos estéticos muda apenas as moedas de poker que substituem as de papel da versão lançada no mercado.
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