• O autor

      Rodrigo Guerini é historiador, professor, autor do blog SanroJoga e redator de jogos para a hardMOB.

      Coimbra (Galápagos)

      Nos últimos anos, dados e jogos euro começaram a fazer as pazes. O símbolo máximo da sorte nos jogos de tabuleiro iniciou um flerte com estratégia muitas vezes seca dos euros ainda com Stefan Feld, mas foram com os italianos que ambos se abraçaram de vez.

      O novo ápice desta relação estranha é Coimbra onde selecionar os dados importa tanto pelo seu valor numérico, quanto pela sua cor.



      Valores mais altos dão preferência ao jogador na hora de escolher uma carta, porém ela custará mais – exatamente o valor do dado. Já valores mais baixos lhe garantem uma economia de recursos fundamental para uma partida consistente, mas arrisca-se a não sobrar nenhuma carta de interesse para a estratégia.

      Soma-se a isto a questão das cores, já que será baseado nelas – independente dos valores dos dados - que o jogador ganhará diferentes bônus dependendo das trilhas correspondentes no tabuleiro.

      São as trilhas e a posição de cada jogador nelas a parte fundamental de uma partida de Coimbra. Pega-se cartas para avançar nas trilhas e dados para gerar os recursos delas. Tudo interligado como em um bom euro. Mesmo as viagens, local que ocupa um terço do belo tabuleiro, nada mais é do que uma outra trilha disfarçada cheia de bônus e pontos.



      Mas há novidades comparado a enxurrada de euros recebidos nos últimos tempos no Brasil? A bem da verdade, pouca. Com exceção da seleção dos dados, que adicionou uma nova camada de complexidade ao adicionar cores diferentes, a escolha de cartas, as trilhas, o uso dos dados é muito parecido com Lorenzo. É um outro jogo, mas são tão semelhantes que não seria estranho alguém confundir um com o outro caso não esteja acostumado com ambos.

      Semelhantes quase a ponto de se perguntar se vale a pena ter ambos na coleção. Amantes deste mix entre dados, cartas e euro provavelmente já possuem grandes títulos lançados no Brasil destes mesmos italianos como o já citado Lorenzo ou Grand Austria Hotel. Por outro lado, se este for o seu primeiro do estilo, Coimbra é mais bonito do que todos e talvez o que melhor funcione em quatro jogadores. De resto, é preferência pessoal por tema e por beleza, nada mais.

      Pontos positivos

      Escolha seus dados – O draft inicial de cada rodada é cheio de decisões interessantes. A capacidade de leitura dos objetivos dos adversários é importante para decidir qual valor e qual cor pegar, além de qual carta arriscar comprar.



      Festa da matemágica – Quem gosta de engrenagens e construção de maquininhas vai se sentir em casa. Todas escolhas têm repercussões em vários aspectos diferentes do jogo. Amantes de excel irão se fartar de locais acionando outros locais.

      Pontos a considerar

      Mais um – Coimbra é um ótimo jogo, mas é mais um euro italiano que chega as terras brasileiras. Se de Tzolk’in até Teotihuacan, passando por Newton, Grand Austria Hotel, Viagens de Marco Polo e Coimbra há um certo espaço entre seus lançamentos la fora, aqui quase todos foram lançados no espaço de um ano. É possível que alguns ainda estejam na prateleira, lacrados.



      Tema? – Tema e euros não estão geralmente de mãos dadas. Mas a sensação é a de que em Coimbra estamos apenas subindo trilhas idênticas que só mudam a cor sem qualquer relação com o tema. Não fosse a arte, Coimbra poderia ser sobre qualquer coisa.

      Pontos negativos

      Pega o manual – Apesar de ser um jogo simples de explicar, Coimbra é daqueles jogos que a iconografia das cartas faz sentido apenas depois de ler o que ela significa no manual. Ajudaria se as cartas tivessem texto e não apenas ícones.



      Cada um faz o seu, até que... – As interações entre jogadores de Coimbra seguem o padrão euro, ou seja, está baseado nas escolhas de posicionamento, no caso dos dados e da escolha das cartas. Isto até aparecer algumas cartas na metade final do jogo onde um jogador pode diretamente retirar pontos de outros jogadores. Haverá quem goste, mas esta interação maldosa parece radicalmente fora de contexto. Como todas as cartas aparecem em todos os jogos, não é possível eliminá-las para uma partida menos agressiva.

      Consideração final: Mais um ótimo euro italiano que tem poucas falhas e muitos adjetivos positivos. Sua seleção de dados baseados nos valores e nas cores inova, mas seus outros aspectos são próximos demais ao de Lorenzo. Se você estiver cansado destas interações entre dados e cartas, não há nada aqui que vai lhe interessar. Se for seu primeiro do gênero, vá sem medo, Coimbra é o que permite as decisões mais interessantes a partir do uso de dados.
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