• O autor

      Rodrigo Guerini é historiador, professor, autor do blog SanroJoga e redator de jogos para a hardMOB.

      Dominations (Galápagos)

      Existe um produto nos EUA chamado “I can’t believe it’s not Butter!”, algo como: “eu não acredito que não é Manteiga!” para um pote que chamaríamos de margarina aqui no Brasil. A pegadinha é criada quando a primeira parte da frase é feita de forma pequena e a palavra manteiga completa em fontes garrafais.

      Dominations: A Ascensão das Civilizações, não confundir com o jogo eletrônico, poderia ter utilizado este artifício e em letras miúdas: “eu não acredito que este não é um jogo de” e em letras maiores “CIVILIZAÇÃO!”. Seria mais honesto.



      A começar pelo nome Dominations que pode induzir a palavra dominação, mas não: é uma soma das palavras dominó e nações. O dominó faz referência a peça triangular colocada no centro da mesa que deveria simular um mapa das civilizações, mas falha ao realizar isto por não demonstrar quase nenhum aspecto de território.

      Já a palavra nação seja uma tentativa de dizer que aquilo que estamos fazendo ali é desenvolver uma nação. Ainda bem que está no título (duas vezes), pois se não fosse este aviso, ninguém perceberia.



      Não que vez ou outra o jogo não se esforce em salpicar o pretenso tema com características de civilização, como na construção das maravilhas ou as cartas de objetivo (mais sobre elas depois), mas mesmo estas maravilhas são feitas de forma colaborativa onde aparece o único aspecto de confronto no jogo: a disputa pela maioria destas peças. Você já imaginou se sumérios e egípcios contribuíssem pela construção da pirâmide e depois decidissem quem iria ficar com elas?

      Somando tudo isto e teríamos apenas um abstrato que quis ser jogo de civilização e não deu certo; todo este resto se torna apenas um zumbido no fundo diante da parte realmente interessante de Dominations: a sua interessante árvore tecnológica.

      É nela e não naquele pretenso mapa que o jogo realmente se desenrola. A fase de adicionar um dominó, ou triminó, e construir se resume apenas aquela fase boba de outros jogos em que você adquire os recursos. A parte divertida está em gastá-los da melhor forma possível, pelo bem da sua árvore.



      Mas como todo jogo que possuí uma árvore estática, há um caminho mais recompensador e que pode ser pensado pré-jogo. Dominations utiliza-se de alguns caminhos para evitar este jogo “perfeito”, como a combinação das cores das cartas, quase como peças de quebra-cabeça infantil, mas principalmente aquela carta de objetivo que citei antes.

      Esta carta – que dá nome a civilização que você joga, numa outra tentativa pífia de tentar associá-lo a um jogo de civilização – cria cinco objetivos difíceis de serem obtidos. Estes desafios fazem os jogadores terem que adaptar suas jogadas para cumpri-las, os cem pontos que podem ser obtidos são importantes demais para serem ignorados em busca de uma “árvore ideal”.



      Pontos positivos

      Um novo – quase igual, mas diferente - desafio - Com inúmeras cartas de objetivos, todas ligeiramente diferentes umas das outras, há, em toda partida, a possibilidade de adaptar minimamente seu jogo para uma execução mais perfeita possível.

      Primeiras partidas – Não há nada como descobrir coisas novas a todo o momento, com 72 poderes diferentes (alguns só mudando os bônus das cores, é verdade), além de suas versões avançadas, totalizando 144 opções, há bastante em se descobrir nas primeiras partidas, inclusive nas interações das tecnologias.

      Pontos a considerar

      Mesa grande – Dominations é um devorador de mesa, seu mapa se espalha a bel prazer, as árvores tecnológicas têm quase vida própria e somado ao tabuleiro de recursos e de pontuação não é qualquer mesa de cozinha que suporta uma partida de 2 jogadores. Em quatro pessoas? Já considerou uma mesa de ping-pong?



      Cores – Cada vez percebemos um esforço de algumas editoras em buscar incluir pessoas com daltonismo em seus jogos. Dominations faz o inverso disso, tendo quase o jogo inteiro baseado em cores e nunca em formas ou símbolos. Se o seu grupo possuí alguém com daltonismo, este jogo não é para você.

      Pontos negativos

      Estrategista master – Como as cartas de tecnologia estão sempre disponíveis, e há uma para cada jogador, com variação apenas nas cores das gemas limitando seu posicionamento, há grandes chances de estratégias ideais serem desenvolvidas havendo muito pouco que os outros jogadores possam fazer para contra-atacar.

      Faço o que eu quiser – A fase inicial de alocação do dominó e conquista de recursos tem sua importância profundamente diminuída pela tecnologia inicial, disponível para todos os jogadores, de trocar dois recursos por um. Com exceção de deliberadamente jogar errado, é muito improvável que um jogador não consiga manipular seus recursos para realizar a ação que almeja, principalmente a partir da segunda era.



      Não acredito que não é um jogo de CIVILIZAÇÃO – Com seu nome e seu subtítulo evocando uma partida épica de civilização, pode-se sair frustrado da mesa com um mero jogo de posicionamento de peças e evolução tecnológica.


      Conclusão: Com um mapa desinteressante, apenas com eventuais disputas pelo controle de área, e uma árvore tecnológica com diversas opções fundamentais para a conclusão de sua carta de objetivo, Dominations poderia ter assumido seu lago Margarina e ser um jogo bem recomendado se não quisesse ser aquilo que ele claramente não é. Se, por outro lado, você realmente quer um pouco de Manteiga, melhor buscar na prateleira ao lado.
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